Prêmio Professores do Brasil 2017

Em busca da Faixa Azul...Graduando para a Vida

 

Prêmio Professores do Brasil 2017

Categoria: Ensino Médio

Reconhecido como um dos 03 (três) Trabalhos Destaques do D.F.

Autor: Maurício Matos Maia

Escola: CIEF – Centro Integrado de Educação Física

Público: Estudantes do CEMEB – Centro de Ensino Médio Elefante Branco

 

 

            Judô, caminho suave, prática corporal idealizada por Jigoro Kano cujos objetivos transcendem as questões técnicas. Kano era professor, reconhecido como Pai da Educação Física japonesa, e por isso é uma grande responsabilidade assumir esta modalidade em minha escola. Requer pesquisa, leitura, além de contextualizar para nossos estudantes os princípios por ele defendidos. Nossos alunos de ensino médio, nas aulas de educação física regular, podem escolher a modalidade que vivenciarão no ano letivo.

Realizar a graduação, a conhecida troca de faixas se tornou um desafio. Seriam capazes, alunos que nunca tiveram contato com a modalidade, trocar de faixa com apenas 01 (um) atendimento semanal? Com o elevado índice de sedentarismo de nossos estudantes conseguiríamos retirá-los de tal situação e ainda aprender judô? Sim, foi possível, com estratégias adequadas, com objetivos definidos, nos avaliando constantemente, reconhecendo nossas deficiências e potencialidades chegamos ao Dia da Graduação com a sensação do dever cumprido. Uma festa judoística, onde as famílias se orgulham de seus filhos, e principalmente, os judocas se sentem verdadeiros judocas. Foi lindo, 17 de setembro de 2016, um dia para história de cada um de meus queridos judocas!

Quando nos parece que o projeto está em vias de ser finalizado, surge uma inquietação, o término de uma etapa da vida e o início de outra. Encarar esta transição conturbada (vide relatos dos ex-alunos) demanda comportamento e estrutura dos antigos Samurais. Sonhos, decepções, sucessos, tristezas, dúvidas, certezas, uma avalanche de situações e emoções. Nada melhor que fazer essa ligação dos ex-alunos com os atuais, mostrando o que realmente acontece após a formatura do ensino médio. O judô não pode parar; graduar para a vida significa buscar sempre mais. Como dizia o professor Jigoro Kano: “Saber cada dia um pouco mais e usá-lo todos os dias para o bem, esse é o caminho dos verdadeiros judocas.”

Planejamento

 

É verdade, somos uma escola diferente, como se diz por aqui no Distrito Federal: uma escola de natureza especial; nem por isso deixamos de ter características idênticas às escolas regulares (conselho de classe, notas bimestrais, frequência, etc). Trabalhamos com uma única disciplina: Educação Física, e a mesma é oferecida aos alunos regulares do ensino médio de uma maneira diferente, pois o estudante tem o privilégio e o direito de optar por uma modalidade.

O grande desafio (situação problema) é a relação que grande parte dos alunos do ensino médio tem com a disciplina Educação Física, vide dados sobre sedentarismo na população brasileira. Se vir de tênis, meia e roupas adequadas para uma prática de atividade física configura-se num problema recorrente, imagine transportar um quimono para a escola... o Judô teve a missão de tentar modificar esta situação. E com apenas 01 (um) encontro semanal para a prática da modalidade... o que seria possível alcançar? Como motivar? Graduar seria possível?

Surge a ideia: Em busca da Faixa Azul, graduando para a Vida... nosso objetivo vai muito além de uma simples troca de faixa, estamos levando aos estudantes conteúdos significativos da educação física/judô: a importância da atividade física; o sedentarismo e suas consequências; higiene e segurança na prática da atividade física; a história do judô; qual o significado de graduar; vivências motoras diversificadas e relacionadas com movimentos dos fundamentos do Judô; contato com a cultura oriental, filosofia e princípios do judô.

Minha expectativa com este desenho de planejamento e temas a serem desenvolvidos visava significativas e transformadoras aprendizagens: primeiramente que nosso aluno entendesse seu próprio corpo, suas limitações e potencialidades, o explorasse dentro de suas condições e principalmente sentisse prazer em praticar o judô, que o ambiente (Dojô) fosse um momento de seu dia onde o aprendizado teórico e prático teria prioridade. E por consequência, suas ações no dia a dia refletiriam o que foi aprendido no Dojô (sala de aula).

A primeira etapa de trabalho foi pesquisar sobre a atividade física e o sedentarismo. Artigos de jornais, com dados atuais da população brasileira e reportagens de revistas foram fundamentais. Depois de compilados eram levados para nosso Dojô para leitura, debate, e relatos orais dos próprios alunos (o que já me serviu para diagnosticar o índice de sedentarismo das turmas).

Concomitante com os textos, tínhamos a vivência prática no Dojô, onde realizávamos nossos primeiros passos como judocas: etiqueta, reverências, respeito ao próximo, as quedas, ordem das faixas, etc... Aulas expositivas sobre a História do Judô, Jigoro Kano, e princípios do judô foram realizadas juntamente com aulas práticas. Assim seguiam nossas aulas, um tempo reservado para debates e explicações, e outro para praticar, aprender, vivenciar o Judô.

Fiz pesquisas sobre o vocabulário básico (em japonês) de uma aula de judô, onde foi passado para os judocas. Falar, repetir e incentivar o estudo dessas poucas palavras foi fundamental para realizarmos avaliações escritas com bom aproveitamento da maioria de nossos alunos.

Nos prepararmos para a culminância de nosso Projeto, o Dia da Graduação, se fez necessário. Aqui surge mais um conteúdo que não estava previsto no meu planejamento inicial, a Educação Financeira. Afinal teríamos que comprar a faixa para os graduandos; nossa escola oferece, através de empréstimo, o quimono (com a faixa branca) para os alunos mediante um termo de responsabilidade. Todavia comprar faixas para aproximadamente 100 alunos era inviável. Com bastante antecedência trabalhamos conceitos sobre responsabilidade, economia e solidariedade. Alguns colegas não tinham condições financeiras de arcar com o custo da faixa, trabalhamos maneiras alternativas e solidárias para reverter esta situação (com sucesso!).

Para encerrar este trecho do planejamento gostaria de transcrever algumas palavras do Dr. Máuri de Carvalho, autor do livro “Judô ética e educação, em busca dos princípios perdidos”, livro que serviu de base para muitas de minhas condutas em sala de aula: “Em sentido lato, Sensei e alunos ensinam-se mutuamente, ajudam-se e progridem juntos. Essa junção, união, é indispensável ao estudo sério e rigoroso do judô, quero dizer, à construção crítica do processo ensino-aprendizagem dessa arte milenar japonesa com a qual é possível contribuir para a formação de guerreiros modernos, imprescindíveis à transformação da sociedade.”

 

Diagnóstico

 

            Iniciarei com o diagnóstico da estrutura física de minha escola. Como relatei anteriormente, é uma escola apenas de educação física, CIEF – Centro Integrado de Educação Física, portanto os locais onde se realizam as aulas são totalmente adequados. No nosso caso do Judô, temos um Dojô em ótimas condições de uso (excetuando-se os momentos de chuva, goteiras). Juntamente com o local adequado, é oferecido ao estudante um quimono com a faixa branca, mediante preenchimento de um Termo de Responsabilidade. Nosso vizinho (a 100m de distância) é o CEMEB – Centro de Ensino Médio Elefante Branco, e todos os alunos frequentam as aulas de educação física no CIEF.

            Antes de adentrar ao diagnóstico específico dos alunos da Educação Física, creio ser pertinente registrar a crise instalada em nosso Ensino Médio Brasileiro: precariedade, nó, repetência, evasão, abandono, desmotivação, crise, assim os estudiosos e especialistas o definem; todos são unânimes em dizer o mesmo, pois as estatísticas, os dados e os números deste segmento não negam estas afirmações, ao contrário, corroboram para tal diagnóstico.

            Possuo uma estratégia de coleta de dados que muito me ajuda a entender o que se passa nas mentes de nossos queridos alunos: questões subjetivas em trabalhos, exercícios e até mesmo em provas. Ler o que nossos estudantes escrevem é uma forma de dar voz a eles, e assim aprendo como eles pensam e principalmente como eles se sentem.

            Vejam esse pequeno trecho da redação da Jéssica: “Eu sempre tive problemas com a Educação Física, nunca me dei bem com bolas, corridas,...lembro que na 3ª série toda semana na aula de edf eu caía e ralava o joelho.” Fica evidente que uma aluna com este histórico possui uma grande probabilidade de continuar a não ter a educação física como sua aliada na vida, se não for acolhida adequadamente.

            Já a Katarina nos diz: “Particularmente, gosto muito de Edf, principalmente sabendo dos benefícios, sempre fui boa nesta disciplina.” A vantagem de se realizar um diagnóstico prévio a respeito das opiniões individuais sobre a Educação Física é que o professor pode se preparar para o que vai encontrar: uns com receio, outros motivados. Assim podemos realizar diferentes abordagens, dependendo da turma, dos alunos, do contexto.

            Em um de nossos anexos está explicitado como conseguimos recolher dados a respeito das experiências anteriores de nossos alunos com relação à educação física. Creio que oportunizando espaços (redações, questões subjetivas em provas, conversas sobre temas relevantes) para que eles se expressem livremente estaremos fomentando a construção de um cidadão crítico e reflexivo, tal como é preconizado na LDB em seu art. 35, inciso III.

             

Desenvolvimento

 

            O nosso projeto inicia conjuntamente com o ano letivo e tem sua culminância no dia da Graduação (dia 17 de setembro de 2016), dia que foi tão almejado pelos estudantes, já que realizaram uma apresentação para os pais, responsáveis, amigos e parentes, além de receberem suas faixas e diplomas. É bem verdade que no decorrer deste projeto surgiu outra ideia que não tínhamos nem imaginado no planejamento inicial; e que fez o projeto “Em busca da Faixa Azul, graduando para a vida...” perdurar até o 2º/3º bimestre do presente ano. No momento oportuno relataremos esta etapa pedagógica que transcende o ensino regular.

            Início de ano, apresentações e esclarecimento sobre o modelo de atendimento da Disciplina Edf no CIEF. Após este momento aguardamos receber os alunos em nosso Ginásio, para que eles escolham a modalidade que irão frequentar por todo o ano letivo. E são variadas modalidades: futsal, voleibol, basquete, ginástica, musculação, atletismo, natação, yoga, handebol, esportes radicais e judô. Minha primeira ação é de ir ao encontro dos alunos, me apresentar, fazer a propaganda e lançar o desafio de encarar uma prática nada comum nas escolas... “venha fazer Judô comigo, vai ser massa!!! Te espero lá nas inscrições.” , ao contrário de muitos de meus colegas que não precisam de fazer “propaganda” , ficam sentados atrás das mesas aguardando as inscrições, afinal são modalidades conhecidas, admiradas e almejadas. O fato do judô não ser tão reconhecido pela maioria dos estudantes, percebe-se nesse primeiro momento dois comportamentos que não encontram respaldo na nossa prática diária: o primeiro é o receio que ao optar por uma LUTA, você poderia se machucar. E a outra visão equivocada seria a de fazer a opção para poder se tornar um lutador. Com paciência e tranquilidade explico que estamos tratando de uma simples aula de educação física, onde teremos apenas 01 (um) encontro semanal e que nossos objetivos são outros; inclusive em nossos quimonos existe o nome que caracteriza nosso ideal: Judô Para Todos. E assim são realizadas as escolhas de modalidade...

            Direcionar aqueles que optaram pelo Judô para o dojô (nossa sala de aula, tatame) é uma emoção, ali se inicia uma caminhada que durará todo o ano letivo. Interessante notar em algumas redações posteriores, que alguns tinham muito receio de escolher o Judô, mas como o professor se apresentou pessoalmente e “trocou uma ideia”, se encorajaram e se inscreveram. Conhecer nosso dojô e começar a explanar sobre o que será necessário para que aula flua é sempre um desafio, afinal uma aula de judô tem características próprias: quimono, faixa, chinelo, reverências, postura, vocabulário, etc... E temos o nosso Termo de Responsabilidade, que entrego em nosso primeiro contato no dojô. A explicação que o quimono e a faixa são de propriedade da escola, e ao aluno lhe é confiada a guarda do mesmo durante todo o ano, faz com tenhamos em nossa pauta de conversas temas como: responsabilidade, patrimônio público, confiança, higiene e planejamento para lavagem do mesmo.

            Quimonos entregues, termos assinados, explicações acerca do chinelo, estamos prontos para entrar no Lugar do Caminho (esta seria uma das traduções de dojô), realizar uma reverência para entrar e “mas porque professor?”; “ótima pergunta!”, respondo eu. Já na primeira aula temos a oportunidade de mostrar que a reverência japonesa (leve curvatura do tronco para frente) não tem nenhum cunho religioso ou espiritual, é simplesmente uma questão de respeito, como se fora um aperto de mão. Oportunidade para incentivar pesquisas sobre a maneira de ver o mundo: ocidentais X orientais; e muitas vezes surgem alunos que já possuem conhecimento sobre o Japão, abre-se espaço para que o mesmo nos ensine (não sou nenhum especialista em Cultura Japonesa, Idioma, ou Tradições; apenas alguns detalhes relacionados ao Judô).

            Nos encontros semanais que se seguiam, continuava a reforçar o que já tínhamos visto e iniciava um grande conceito/fundamento do judô, as quedas (ukemis). É um momento delicado, pois os alunos que escolhem o judô por conhecer ou já terem visto algumas cenas ou fotos, pensam que após algumas aulas estarão aptos a “jogar” (projetar) algum adversário. São dois “choques” para os futuros judocas: primeiramente o judoca não aprende a jogar, aprende a cair (a questão de segurança deve ser prioridade para o professor de edf/judô); e o outro momento de estranhamento é que no dojô não temos adversários, temos amigos (este é o vocábulo que utilizamos todos os dias para nos referirmos ao outro dentro do dojô). Conhecer e vivenciar as quedas do judô (para trás, para frente e para o lado) através de uma sequência pedagógica que privilegia o movimento menos complexo (todos podem realizá-lo, sem risco) é uma experiência que abre espaço para uma reflexão filosófica acerca de nossas vidas. A queda não é encarada como derrota, e sim como parte do aprendizado e evolução de um judoca; aprender a cair faz parte desta formação. Aproveitamos a oportunidade para refletir: “quem nunca caiu?”. Cair/levantar, cair/levantar, cair/levantar, quantas vezes forem necessárias... no judô? na vida? sim, em ambos. A persistência e a vontade de alcançar seu objetivo é um dos traços atribuídos ao Judoca. Não há como desvencilhar este momento do judô com as dúvidas, angústias, sonhos dos alunos de Ensino Médio (Enem, Prouni, Sisu, Fies, Ensino Técnico, Mercado de Trabalho, etc.). Creio que é a partir desse momento que nossos vínculos se fortalecem, a relação professor-aluno dá um salto, pois através de minhas falas e preocupações, os estudantes começam a notar que não estou só preocupado com a parte técnica do judô, mas de como será o prosseguimento da vida de cada um.

            Como a boa relação professor-aluno vai se solidificando, é hora de implementarmos um projeto que foi criado por meus alunos em 2014, o famoso Grupo de Whatsapp da Galera do Judô. É incrível, quem foi responsável por minha inserção digital em redes sociais foi o grupo de judocas de 2014. Minhas convicções sobre redes sociais foram modificadas sensivelmente, criando um campo pedagógico extremamente fértil e produtivo que posteriormente, neste trabalho, será revelado. Ter um grupo de whatsapp com 60/70/80 jovens e adolescentes, definitivamente, não é tarefa fácil. Demanda paciência, muita paciência; deles para comigo, e minha para com eles...Acordos são feitos, combinados são cumpridos, e principalmente: objetivos do grupo são definidos e esclarecidos. Feito isto, a cada ano que passa os inconvenientes são minimizados; é verdade que não encaro as postagens “problema” como problemas, e sim como uma oportunidade pedagógica de debater sobre a situação em sala de aula. É desafiador tentar transformar estes acontecimentos em debates, conversas e conclusões que estejam relacionadas com a preparação para a cidadania (LDB, art 35º, inciso II).

            Vocabulário judoístico: contar de 01 até 20 em japonês, começar, parar, terminar, atenção total, fechar os olhos e refletir... hajime, mate, soremade, kiutsuke, mokusso; são apenas alguns exemplos das poucas palavras que utilizamos e cobramos, porém utilizá-las em um dojô numa aula de judô, é uma maneira de vivenciar uma outra cultura e refletir sobre a mesma. Entrego para cada aluno uma folha onde constam as palavras chaves e as mais usadas dentro de um dojô; e as utilizamos em todas as aulas, em todos os momentos, facilitando o aprendizado. Contar em japonês (puxar um determinado exercício) em voz alta, para toda a turma, é um desafio que é vencido por todos; uns no início do ano, outros no 3º bimestre... Mas todos alcançam essa pequena vitória, que contribui para a construção da autoconfiança de nossos iniciantes. Valorizar cada palavra apreendida faz parte de nossa estratégia de trabalho: elogiar sempre, a cada pequeno avanço. Gostaria de relembrar que os conteúdos cognitivos são sempre trabalhados simultaneamente com os procedimentais e atitudinais.

            Já passamos por algumas fases de nossa jornada, um bom grau de confiança já foi alcançado, sendo assim, é hora da Cambalhota... Compreendo que dissertar sobre um único movimento em uma apresentação de Projeto parece ser inadequado, todavia este trecho de nosso relato quer demonstrar algo além do simples movimento. A verdade é que recebemos muitos estudantes que possuem uma vivência motora limitada com uma coordenação motora não desenvolvida adequadamente para a faixa etária. Não entraremos na problemática de buscar os motivos ou razões de tal situação; vamos apenas expor que a tal Cambalhota é temida e evitada por alguns de nossos alunos; e assim passa a ser um desafio gigantesco para alguns. Talvez um dos momentos mais significativos para àqueles que têm essa dificuldade, seja superá-la em nosso dojô. Não acontece em uma ou duas aulas, é um processo que demanda tempo e paciência. E quando se supera, o professor juntamente com a turma inteira aplaudem o amigo que venceu um grande desafio, a Cambalhota. Juntamente com a cambalhota introduzimos outro movimento de queda do judô: o rolamento (zempo kaiten ukemi), técnica fundamental para a segurança dos estudantes.

            Chega a hora de planejar a graduação: conhecer a ordem das faixas, o significado da graduação para o judoca, saber o preço de uma faixa, conhecer o diploma e assinar um documento que tem por objetivo saber se o aluno tem interesse em graduar. A questão de assinar um documento de interesse em graduar e saber do custo de uma faixa nova, nos faz ter outra oportunidade para avançar na questão de cidadania: compromisso, responsabilidade e planejamento financeiro. Para alguns de nossos estudantes o valor de R$ 15,00 é algo fácil desse conseguir, já para outros significa um esforço tremendo (devido as condições financeiras da família), e para alguns poucos é inatingível! Como trabalhamos esta questão? Com muita clareza e transparência abordamos estas questões; surge a solidariedade e a cooperação como temas de sala de aula. Meu objetivo é passar a mensagem que ninguém que tiver interesse de graduar deixará de graduar por questões financeiras. O diploma é oferecido pela Secretaria de Educação, que possui uma gráfica, basta solicitar o serviço com 03 meses (aproximadamente) de antecedência. Em relação à ordem das faixas criamos a nossa sequência possível para os estudantes do ensino médio: cinza, azul clara e azul escura. Assim eles têm 03 níveis técnicos dentro do judô, que dependerá do número de presenças/faltas, dos trabalhos realizados, das provas teóricas, das provas práticas, da participação nas aulas. E a decisão final para qual faixa o judoca será graduado é do Sensei (professor, em japonês), no caso Eu. Geramos aqui muitas expectativas por parte dos alunos, pois o resultado somente é recebido no Dia da Graduação, com a entrega do diploma e da faixa. Não posso afirmar que todos os alunos graduam no tão esperado dia, mas conseguimos alcançar um excelente percentual (mais de 90%). Os motivos pelos quais alguns alunos não comparecem são variados; como o evento acontece num sábado, alguns têm compromissos com igreja, cursos, trabalho e num percentual mínimo aqueles que realmente não desejam participar. Os que não podem comparecer no dia da graduação mas desejam graduar, realizamos pequenas cerimônias no próprio horário de aula, com sua turma de educação física regular.

            Concomitantemente ao planejamento financeiro seguimos evoluindo na parte prática do judô, nossa sequência pedagógica é caracterizada por uma regrinha: do mais simples e seguro para o mais complexo e “arriscado”. Para registro: não tivemos nenhuma lesão nas aulas de educação física/judô no decorrer deste projeto. Apenas para efeito de conhecimento, para exemplificar como se seguem as aulas práticas temos alguns conteúdos aplicados: pegada gola-manga, deslocamento no tatame, pegada com desequilíbrio (sem queda), movimento de varredura com o pé-perna, imobilizações, conceito da guarda, pequenos combates no solo, e quando o fundamento de queda estiver razoavelmente desenvolvido iniciamos com uma projeção (golpe), o Ogoshi. Escolhi este golpe, pois com ele podemos fazer algumas alterações de postura que trazem uma sensação de segurança para o estudante que está recebendo o golpe. E assim seguimos em direção ao dia da graduação.

            Compra de faixas, preenchimento de diplomas, logística do evento (agendamento do ginásio, localização do tatame, cadeiras para os pais/responsáveis/amigos, equipamento de som, voluntários para recepcionarem os convidados e para entregar o diploma e a faixa), e convite para: os familiares dos judocas, para vários Senseis da cidade, para as Direções das escolas atendidas no CIEF,  são algumas das ações necessárias para o sucesso do evento. Os alunos foco deste relato não são os únicos a graduarem, todos judocas que atendi em 2016 fazem parte deste processo e “festa pedagógica do judô”; para entender a dimensão do Dia da Graduação, cito as escolas/turmas atendidas por mim:

  1. Ensino Fundamental séries iniciais: Escola Classe nº 05 do Cruzeiro, Escola Classe 407 norte, Escola Classe 204 sul, Escola Classe 209 sul e Escola Classe 413 sul.

  2. Projeto Especial: é uma turma que é aberta a comunidade escolar e comunidade em geral.

  3. 05 turmas de Ensino Médio / Educação Física Escolar (2º e 3º anos)-foco deste relato.

 

Dia da Graduação, mais de 100 (cem) judocas no tatame, no centro do Ginásio, creio que entre 200 e 250 pessoas na plateia, diplomas e faixas sendo entregues, famílias presentes e orgulhosas, é um momento onde conseguimos estar juntos, professor, alunos e família. Interessante ressaltar que os estudantes nunca sequer viram os outros judocas de outras turmas, nunca fizeram uma aula juntos, contudo a aula se desenvolve de maneira harmônica. No decorrer do ano alguns me questionam como será o dia da graduação, e eu respondo que não será nada demais, apenas um a aula conjunta com outros judocas. E assim sucede, mas esse Dia marca, tem significância, mexe com a emoção de judocas e familiares (vide relatos e avaliações), e como não mexer com este que vos fala? Fico emocionado, orgulhoso, e já pensando em ações complementares e/ou corretivas para o ano seguinte (verdadeiro sentido da Avaliação Escolar).

Após o Dia da Graduação este se projeto encerraria, não imediatamente, forneceríamos alguns espaços (redações, questões de provas ou testes, conversas informais) onde os alunos poderiam realizar suas avaliações, comentários, críticas e sugestões. Surge após a Graduação de 2016, uma nova ideia. Para que se entenda é preciso dizer que este projeto de 2016 é o aperfeiçoamento “natural” (processo de avaliação, ação, reavaliação, ação) dos projetos de 2014 e de 2015. Como muitos de nossos alunos estão cursando o 3º ano do ensino médio, existe um clima de despedida no ar, eles estarão adentrando em breve a chamada “vida adulta” com suas escolhas acadêmicas ou não. Sucede que no início de 2017, eles estão caminhando em outras direções: trabalho, estudar novamente para o Enem, cursando a graduação, perspectivas acadêmicas ou não, sonhos realizados ou em andamento, tristezas, alegrias, decepções, sucessos, enfim, uma avalanche de acontecimentos e emoções. Com o advento de nosso grupo de whatsapp não perdi o contato com muitos deles. E então, no início do presente ano, lanço um subprojeto para os que não são mais meus alunos: faça um relato (depoimento) sobre a transição do ensino médio para a “vida adulta”. Qual o objetivo desses relatos? Trazê-los para leitura e debate dos meus atuais alunos para que todos tenham acesso ao que acontece realmente após a Formatura de Ensino Médio. Não foram todos os alunos que enviaram seus depoimentos, mas obtivemos a participação de um número significativo de ex-alunos; suficiente para montarmos uma apostila para leitura/debate em sala de aula. Estará em nossos anexos. Para a montagem desta apostila deixei os ex-alunos a vontade para se identificarem ou não, alguns preferem o anonimato. Nos anexos enviarei um relato em separado, anônimo que muito me emocionou (vale a leitura). Se estes relatos terão cumpridos seus objetivos ou não, só poderemos afirmar em 2018, através do mesmo tipo de ação. O que posso de antemão relatar é que uma aluna, a Anna, ao ler alguns desses relatos, pede a palavra em uma das minhas aulas e diz: “ano que vem o senhor terá orgulho de minha história”. O que me obriga (com grande alegria e satisfação profissional) a continuar aperfeiçoando nosso Projeto.

 

           

Avaliação

Aprendizagem

 

Em meu curso de especialização em Educação Física Escolar decidi escrever, me aprofundar, e pesquisar sobre um dos temas que mais me fascinam em Educação, a Avaliação. Não utilizarei este espaço para defender nomenclaturas ou conceitos referentes à Avaliação, porém gostaria de iniciar esta etapa do relato com uma frase de uma autora que muito admiro e posso afirmar que ler seus livros (são vários) me fez refletir sobre a avaliação escolar em todos os dias de trabalho: “A avaliação, enquanto relação dialógica, vai conceber o conhecimento como apropriação do saber pelo aluno e também pelo professor, como ação-reflexão-ação que se passa na sala de aula em direção a um saber aprimorado, enriquecido, carregado de significados, de compreensão.”, Jussara Hoffmann.

Em nossa prática utilizamos variados instrumentos avaliativos, sabendo que somente assim podemos realizar uma avaliação mais fidedigna. O primeiro instrumento avaliativo é a observação diária onde podemos verificar o desenvolvimento motor relativo aos movimentos do judô. Um pequeno exemplo é no dia da graduação quando solicitamos para que todos realizem uma movimentação de queda de amortecimento para trás (ushiro ukemi) e verificamos que todos conseguem executar um dos princípios básicos de segurança do judô: não bater a cabeça no solo. A parte prática de nossos objetivos iniciais são alcançados e verificados pela minha observação, mas principalmente pela auto avaliação realizada pelos alunos; com frases como: “... e professor, nunca imaginei que poderia realizar uma cambalhota.”; “...e acho que não sou mais tão sedentária, tipo no começo do ano”; “...quero continuar a fazer judô.”.

Outro instrumento avaliativo são as questões orais onde intercalamos com atividades práticas, ou seja, estamos fazendo determinados exercícios e de repente pergunto sobre vocabulário, significados, nome de imobilizações, etc. Poderia chamar este procedimento de teste oral ou prova oral, mas como tem um caráter de reforço de conteúdos já vistos, chamamos de intervenções orais. Além da questão cognitiva pretendemos que se crie um clima harmônico dentro do dojô, com confiança, comprometimento, e descontração. Vejo que estas questões orais contribuem para incentivar e desafiar vários alunos.

Redações, são fundamentais para conhecer (fase diagnóstico) e também para sabermos como estamos caminhando (fase avaliativa). Em alguns momentos solicito uma redação completa (de 30 a 50 linhas, por exemplo), outras vezes o pedido se encontra inserido numa prova escrita, no formato de uma questão (de 10 a 20 linhas, por exemplo). Leio sempre com muita atenção e faço pequenos resumos e tabulações sobre temas que se repetem, para levá-los a sala de aula em forma de debates. É um momento muito interessante, pois quando mostramos aos alunos que o mesmo tema pode ter diferentes interpretações, acredito estar fomentando: a reflexão sobre a própria opinião; exercício à tolerância; respeito às opiniões alheias; e pensamento crítico.

A disciplina Educação Física tem um caráter de prática, de vivência, de participação efetiva; e por essa razão, os judocas são avaliados em todas as aulas práticas (outro instrumento avaliativo). Em algumas situações agendamos uma prova prática, que poderíamos caracterizar como uma aula prática com algumas formalidades.

Nas provas escritas mesclamos conteúdos do judô com a Avaliação do Estudante sobre nosso atendimento: avaliação da aula e avaliação do professor. Escutar as opiniões, críticas e elogios é de fundamental importância para meu crescimento profissional, já que através destas avaliações já modifiquei meu comportamento no decorrer de nossa jornada pedagógica. Promover que os alunos se expressem sobre minha prática profissional é um ato de coragem; afinal poderia me sentir exposto (e me sinto). Mas posso afirmar que é um aprendizado constante, e que gera um crescimento mútuo, tanto de professor quanto dos estudantes. Paulo Freire no livro “Cartas a quem quer ensinar” nos lembra de que o professor é um ser que possui debilidades, erros, fraquezas; e admitir esta situação é um ato de coragem.

Por fim não poderia deixar de trabalhar e dar espaço a autoavaliação, e este instrumento pode ser utilizado de diferentes maneiras, por exemplo: oralmente em particular, oralmente em grupo, oralmente com intervenções do professor, escrita, escrita com intervenções orais do professor.

Com a utilização destes instrumentos avaliativos descritos acima posso afirmar que os alunos-judocas aprenderam sobre os conteúdos propostos e principalmente modificaram comportamentos, seguem algumas constatações:

  1. sabem dos benefícios da prática regular de atividade física;

  2. muitos saíram do sedentarismo, através do judô ou outra modalidade;

  3. alguns se matricularam no judô (contra turno);

  4. sabem como adentrar ao dojô, reverências e as posturas básicas (agura, seiza e tyokuritsu);

  5. o vocabulário básico do judô foi assimilado pela grande maioria dos judocas;

  6. a higienização do quimono é satisfatória. O cuidado com as unhas, cabelos e vestimentas complementares foi alcançado;

  7. demonstram maior respeito pela sala de aula (dojô);

  8. conhecem o país de origem do judô e seu criador;

  9. são mais unidos, se cumprimentam, se ajudam;

  10. conseguem realizar pequenos combates de solo e aplicar imobilizações;

  11. o índice de esquecimento do quimono para as aulas é praticamente nulo;

  12. realizam o rolamento do judô com a técnica correspondente à sua graduação;

  13. conhecem um dos princípios do judô, jita kyoei, ajuda mútua. Muitos o colocam em ação em suas vidas;

  14. os fundamentos de quedas foi assimilado por todos (ushiro ukemi, yoko ukemi, mae ukemi);

  15. a grande maioria consegue projetar o amigo e ser projetado (jogar e ser jogado) com a técnica Ogoshi;

  16. são unânimes em relatar que o judô fará parte de suas vidas, contribuindo de maneira positiva para suas ações diárias como cidadãos;

  17. demonstram mais confiança e conhecimento sobre a transição ensino médio -“vida adulta”;

  18. são mais críticos e reflexivos, nota-se pela participação oral em sala de aula e pela coerência de raciocínio.

Como relatado anteriormente este caminho à graduação em formato de projeto começou em 2014, quando assumi a modalidade judô no CIEF. Pela falta de experiência na modalidade (nunca tinha ministrado aulas de judô) fiquei muito receoso com o projeto; não sabia se alcançaria resultados satisfatórios. Como os resultados foram surpreendentemente positivos, posso afirmar que muito do que foi feito em 2014/15 serviu de aprendizado e de estímulo para o atual projeto que apresento.

É um projeto que é vivo, se transforma, abre novas perspectivas e ideias são sempre bem vindas. Posso citar o exemplo desse projeto em 2014, quando nossos quimonos não traziam nenhum tipo de identificação e um dos nossos alunos perguntou: “professor, nós não temos um símbolo?”. Pergunta recheada de significado, já que as academias de lutas sempre possuem algum tipo de identificação por meio de logotipos. Criamos nosso logotipo e fizemos ações para que todos nossos quimonos fossem pintados. Já em 2015 os mesmos alunos deram a ideia de pintar o símbolo do Judô Cief na camisa do uniforme da escola (CEMEB); procuramos a Direção e após autorização realizamos esta outra ação pedagógica, que tinha e tem por objetivo criar o sentimento de pertencimento (Maslow, necessidades sociais). Enfim, são pequenos exemplos de como a avaliação-reavaliação constante promove mudanças que colaboram para o crescimento do projeto, e principalmente faz com que se estabeleça no calendário escolar. Este ano, por exemplo, estamos vivenciando o mesmo processo, nossa graduação será 30 de setembro, com novas estratégias. Foi através da participação de nossos alunos que surgiram novas ideias, ações, e possíveis projetos. A ideia que mais me motiva atualmente, mas ainda não está estruturada, é a doação de sangue pelos judocas... Judoca Sangue Bom seria um bom nome, não?

 

Reflexão

 

Quanto à replicação do presente projeto esbarramos na questão estrutural e no formato de atendimento de minha escola. Por ser uma Escola de Natureza Especial, como já diz o próprio nome, fornece um atendimento diferenciado. Não há como citar variados comentários de meus alunos (em suas redações, provas escritas, questões dissertativas) que se fazem representar por este trecho de uma aluna: “... todas escolas públicas deveriam ter a educação física como nós temos, ...”. Encontrar uma escola que tem a nossa estrutura para atender alunos do ensino regular é algo raro; vide as condições estruturais de grande parte das escolas públicas brasileiras. Piscina, pista de atletismo, ginásio, 05 quadras poliesportivas ao ar livre, sala de jogos, gramado amplo, sala de musculação, 03 espaços para aulas de ginástica, e nosso Dojô compõem nosso espaço físico disponível. Nunca poderemos dizer que nosso trabalho não alcança resultados satisfatórios por falta de estrutura ou apoio da Direção da escola. A direção apoiou, desde a implantação deste projeto, incondicionalmente todas nossas ações e iniciativas.

Outro ponto crítico em relação à replicação é a forma de atendimento, temos em uma única escola mais de 30 profissionais de educação física, o que permite que os alunos de ensino médio escolham uma modalidade para cursarem sua educação física curricular. Vejo que sob esta ótica somos uma escola inovadora, onde nosso modelo de atendimento está em constante reformulação. É um atendimento que iniciou em 2014, tendo pontos positivos e negativos. Apenas para exemplificar nossa curta jornada com este desenho de atendimento, cito que em 2014 tínhamos 03 horários destinados aos alunos do CEMEB; já em 2015 estes horários foram ampliados para 08; e em 2016 chegamos ao que se repetiu no presente ano, 05 horários para educação física curricular do ensino médio.

Independentemente da estrutura física e da forma de atendimento creio que a replicação de nosso projeto pode alcançar qualquer disciplina em qualquer realidade, se observados os princípios que o mesmo trilhou. Diagnosticar a clientela atendida, dar voz e vez aos estudantes, compromisso do professor, vontade de inovar e arriscar, acreditar no projeto e principalmente nos alunos, ser claro e transparente no que diz respeito às metas e objetivos propostos, e sempre, sempre: reavaliar, agir, avaliar, agir, reavaliar,...

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